domingo, 30 de agosto de 2020

Metamorfose





A história começa com um jovem tenente que ameaça colocar uma bomba em algum lugar como parte de um  plano para aumentar o soldo dos militares. Este capítulo terminou mal, mas não tão mal quanto poderia ter sido; um tempo em prisão. Pelo contrário, de tenente virou capitão, por força de ter sido excluído do Exército. Em última análise foi beneficiado com uma promoção, apesar de grave falta,  para a qual nenhum esforço fez. Vá entender....

Depois veio o período legislativo, eleito Deputado Federal que foi, por parte suficiente do estamento militar. Parabéns,  Capitão. Após quase uma dezena de anos, o jovem político foi fiel à sua base, sempre propondo aumentos para a sua classe. Ao longo do caminho nada fez de substância, a não ser reações impetuosas e ofensivas quando confrontado.

E eis que a Providência lhe envia o grande presente de sua vida: Luiz Ignácio Lula da Silva.

A nação, desgastada e ferida pelos governos da esquerda inepta e cleptônoma partiu em busca eleitoral por um candidato que fosse o oposto do inconfiável Lula e da caricata Dilma. Basta de PT e congêneres...

Qual conto de fada, adentra o cavaleiro em reluzente armadura, levantando o estandarte da probidade pública, da pureza fiscal e do equilíbrio administrativo. Proclamando a higidez política que seu eleitorado buscava, o presidente declarou-se infenso às ambições mesquinhas de seus antecessores, recusando buscar a reeleição em prol de um governo centrado na urgente redenção política e econômica da Nação.

Tiro e queda! Com larga margem, Jair Messias Bolsonaro é eleito presidente da República! A classe média jubila, a elite se extasia, e com razão, pois chegara a esperança de racionalidade.

Mas os deuses pouca atenção dão às vãs esperanças dos simples mortais. Qual o deus grego Taranis, lançaram seu dardo, não como trovão mas como Pandemia. O desafio, já considerável, tornou-se inédito em sua intensidade. A sociedade, acuada pelo vírus, vê a avalanche de desafios sanitários e econômicos, clamando por liderança, denodo e competência.

Já Jair Bolsonaro, confrontado com as negras nuvens ameaçando seu futuro político refletidas na queda de sua popularidade em pesquisas, mudou o rumo, tendo por Norte garantir sua reeleição.

Buscando retomar a atividade econômica contida pelo "lockdown", entrou em negação, proclamou  ser o flagelo mera gripezinha, receitou remédios inapropriados,  desprezou o distanciamento social e o uso da máscara. Buscou um milagre que não se realizou. Confuso, preferiu enganar a remediar. Não mobilizou todo o arsenal que a presidência lhe confere. Em mensagem pública embaralhou a ação profilática, não coordenou, dentro dos limites da ciência e experiência internacional, a ação dos governadores e prefeitos. Pelo contrario, acentuou a desorientação popular, demitindo em série Ministros da Saúde por contrariarem suas visões panglossianas.

Mas não esmoreceu em seu projeto eleitoral. Surfando a onda distributivista imposta pela necessária assistência às classes mais pobres, o presidente constata o dividendo eleitoral que dela decorre. O Tesouro, mobilizado, veio à socorro. Transformando a outrora vilipendiada Bolsa Família, cria-se a Renda Brasil, esta sem, sequer, o benefício do vínculo escolar. Determina novas distribuições porém se aproxima do limite orçamentário, levantando a bandeira do alerta. Cria o Pro-Brasil, segundo ele um novo Plano Marshall, sem encontrar os recursos para sua realização.

Muito, senão tudo, indica que se aproxima a etapa final do desmonte do ministério dos sonhos iniciais de Jair Bolsonaro e o início da já conhecida era populista.. O desgaste crescente de Paulo Guedes parece indicar sua próxima substituição, pois é incompatível com a visão imediatista da nova aliança com o  Centrão fisiológico.

Estaria em jogo uma re-arrumação da base eleitoral; onde o apoio da burguesia favorável à disciplina orçamentária seria subordinado à conquista do lumpen-proletariado? A ver...






   

domingo, 16 de agosto de 2020

A temperatura aumenta

New Middle East railways map released by RAME UIC

Todo acordo que possa desarmar espíritos e atenuar tensões no Oriente Médio será sempre bem vindo pela comunidade internacional. Sob pressão (ou estímulo?) de Bill Clinton, um tratado de Paz foi celebrado entre Israel, de uma lado, e Egito e Jordânia do outro.  De fato, não mais houve guerra entre estas nações.

Hoje, foi a vez de Donald Trump,, artífice de acordo celebrado entre  Israel e os Emirados Árabes. Estes últimos, com o objetivo de atenuar o repúdio da população árabe face à  vilipendiada aproximação, buscou garantir a integridade do estado Palestino contra a anexação de suas terras por Israel.   Tal iniciativa mereceria aplausos desde que, efetivamente, desarmasse este contencioso.

Mas não foi isto que ocorreu; apoiado por Donald Trump, o primeiro ministro de Israel usou tática conhecida. Deixe o interlocutor se aprofundar na negociação e acreditar na aceitação de sua proposta para, nos momentos finais, retroceder. Confrontado com a mudança de posição, o Sheik Mahomad bin Zayed já se encontrava por demais  engajado com o presidente americano; retroceder seria embaraçoso e desmoralizante, criando hostilidade antes não existente. A contragosto aceitou a declaração de Netanyahu de ser o compromisso de respeitar a integridade Palestina apenas temporário, mantendo vivo o germe da discórdia entre os Semitas árabes e judeus.

Porém, perante a imprensa mundial, cercado de seus assessores o Presidente Trump não hesitou em declarar:

“This historic diplomatic breakthrough will advance peace in the Middle East region and is a testament to the bold diplomacy and vision of the three leaders and the courage of the United Arab Emirates and Israel to chart a new path that will unlock the great potential in the region,” ¹

A hipérbole presidencial parece infundada, tendo por objetivo  se auto-valorizar  Faz crer que a região torna-se pacificada quando uma análise isenta demonstra que nada mudou. Assim revela-se um acordo onde as razões de insatisfação prevalecem. A Palestina sob ameaça perene de desaparecer. Não é uma perspectiva pacificadora.

Contudo, o quadro que ora se cria é muito mais grave. Pode estender-se muito além destas fronteiras. Uma visão mais abrangente revela uma nova configuração e perigosa configuração geopolítica, trazendo à tona os ódios confessionais que tanto afligem a região. Uma análise sob o explícito, em busca do implícito, permite estimar-se que o acordo firmado, longe de tratar da questão Palestina visa, de fato, a contenção do Irã no Oriente Médio.

Assim, a razão indica que o acordo ora celebrado terá, em breve, a participação da Arábia Saudita e do Bahrein para, em inédita causa comum, amalgamar-se árabes-sunitas  e judeus. Razoável supor-se que a contensão do Irã pela mudança de seu regime venha a tornar-se prioridade. 

Já, as consequências geopolítica e militar que  derivam deste novo bloco de poder terá, possivelmente,  efeito desestabilizador no Oriente Médio, uma vez que nações antagônicas à estes objetivos venham a se resguardar do novo perigo. Do lado persa e de seu aliados pode-se esperar contramedidas, acentuando a probabilidade de escalada em lances recíprocos.

A concretizar-se tal cenário, outros países serão envolvidos neste contencioso.  A Turquia  não veria com agrado a formação deste novo bloco. Apesar de também ser majoritariamente Sunita, sua visão mais se apoia nos conceitos da Irmandade Muçulmana, movimento menos radical e mais político.  Sua extensa fronteira oriental e meridional com o Irã, Iraque e Síria seria fonte de sério desconforto em caso de acirramento dos ânimos. Hoje, as relações entre Ancara e Teerã são cordiais.

Quanto ao Iraque, país preponderantemente xiita, observa-se importante influência política e paramilitar iraniana disseminada através do país. Isto posto, Bagdá veria com preocupação a formação de tão poderoso bloco Sunita, potencialmente hostil, em suas fronteiras. A possível busca de proteção iraniana, irmãos de fé,  não deveria ser  descartada.

Porém os efeitos de tal conflito não se restringiriam, apenas, ao Oriente Médio. Tanto a Rússia quanto a China têm relevante interesse na atual integridade política do Irã. O primeiro, por situar-se o Irã no seu "under-belly"², fronteiriço aos "...estãos", membros da "área de colaboração" com a Rússia. A proximidade de forças hostis ao Kremlin às fronteiras de suas áreas de influência provavelmente provocaria sério desconforto.

Quanto aos interesses da China, o pleno acesso ao petróleo do Golfo Pérsico em geral, e ao Irã em particular, é essencial à sua sobrevivência, seja pela quantidade importada, seja pela diversificação de fontes de combustível. Qualquer tentativa de mudança de regime em Teerã, se colocado sob tutela norte americana, traria extrema preocupação a Pequim.

Toda atenção é pouca...


1) Entende-se que o um dos lideres homenageados seja ele próprio.
2) Parte vulnerável da Russia (o baixo estômago), composta pelos Afeganistão, Turquemenistão, Quirguistão, etc....

domingo, 9 de agosto de 2020

Esperanças e Temores

Um resumo dos 4 primeiros dias do governo Bolsonaro


O combate à corrupção  pela denominada Lava Jato, tomou conta da Nação. A cada processo, a cada inquirição, a cada julgamento, a cada condenação a grande maioria  do povo brasileiro se exaltava em júbilo. Até que em fim chegou a hora de acabar com a corrupção endêmica que afligia o Brasil. O combate ao rosário de crimes, a constelação de roubos dos cofres  públicos, o desfile dos poderosos até então impunes levava  o brasileiro à confiança no futuro e ao vislumbre de um novo país.

Um após o outro era encarcerado, não mais "fichinhas"  desimportantes;  as grades recebiam políticos orgulhosos por longo saque dos bens públicos, empresários endinheirados e acumpliciados com o poder se viam acompanhados pelo "japonês", inesperado símbolo asiático em terras tupiniquins.

E o reconhecimento, sim, o agradecimento àqueles jovens e corajosos procuradores e juízes, que contestando a tradição da criminosa tolerância,  decidiram derrubá-la.

Dentre eles, Sergio Moro, o juiz de imensa coragem, enfrentaram o até então invicto establishment, rompendo as barreiras jurídicas e políticas. Anteriormente protegida, a caterva  surpreendida, recuava, tergiversava, caluniava em busca desesperada por atenuantes. Porém o "Todo mundo faz" não mais tinha o peso de justificativa. O desnudar-se das Caixa 2 rompeu a opacidade que protegia o mal feito. O Brasil mudava, se iluminava pelo fim da impunidade, pela proteção ao erário, pela responsabilização do mal feitor.

Mas esse foi o primeiro Ato de uma peça de fim ainda desconhecido. Jair Bolsonaro, sustentado por  três colunas, Justiça sob Sérgio Moro, Economia sob Paulo Guedes e Política Externa sob Ernesto Araújo  deu início a seu governo com notável apoio eleitoral.

Passados 18 meses, sob o comando do Tenente², necessário se faz avaliar qual o estado da União? 

No que tange a Justiça, observa-se a tentativa de politizá-la e, por vezes,  subvertê-la.

- Demissão do Juiz Sérgio Moro, peça chave quando da eleição do Presidente;
- Dossiers sobre cidadãos opositores elaborados em sigilo;
- Politização da Polícia Federal e da ABIN;
- Escolha de Procurador Geral da União, ignorando a tradicional lista tríplice que busca isenção;
- Devassa nos processos da Lava Jato em busca de imperfeições jurídicas, assim favorecendo a      anulação das sentenças contra o ex-presidente Lula;
- Ocultação de suspeito de crime, procurado pela polícia;
- Aliança com o Centrão e o retorno às práticas políticas anteriormente criticadas, com abertura de    cargos administrativos em troca de apoio parlamentar.
- Acumpliciamento com a produção de Fake News.

Quanto à Economia, justo dizer-se que a ocorrência da Pandemia impede uma avaliação clara de sua condução. Contudo, a decisão estratégica de adiar-se a votação das reformas Tributárias e Administrativas ainda em 2019, quando o poder político do Presidente encontrava-se no ápice, não tem explicação convincente, a não ser a própria indecisão do Presidente.

Divergindo de suas iniciais  afirmações contrárias à Bolsa Família, Bolsonaro revela o pendor populista ao inverter sua posição, propondo o Renda Brasil, ainda mais generoso que o antecessor. Suas invectivas repetidas contra os "vagabundos", leia-se "pobres",  parecem esquecidas, tendo em vista o objetivo de captura maciça de eleitores.

Já na Política Externa, desfaz-se a secular construção de nossa respeitada imagem no exterior. O chanceler, Ernesto Araújo, discípulo do "filósofo" Olavo de Carvalho, teve seu nome secundado pelos filhos Bolsonaro. Dentre os diplomatas, a sua visão terra-planista mereceu o desprezo e antipatia das grandes nações Ocidentais.

O novo Itamaraty, sob novo comando, tornou-se fonte de constrangimento dentro e além fronteiras:

- Como represália às críticas francesas à política brasileira do meio ambiente, optou-se por insultar a Primeira Dama da República Francesa, cuja nação é berço da cultura Ocidental e grande investidora no Brasil.
- Perder importante contribuição financeira apoio da Noruega e da Alemanha ligada à preservação da Amazônia.
- Intervir nas eleições argentinas ao apoiar, ostensivamente, o candidato perdedor; não alertado pela derrota, acentuou sua intervenção criticando o presidente da Argentina (como coadjuvante, o ministro Paulo Guedes, ignorando o nosso importante comércio com aquele país, declarou "não precisamos da Argentina!".
- Emitir declarações ofensivas à China.
- Contrariar a clara posição da Organização das Nações Unidos, da qual o Brasil participa desde sua criação, ao defender o reconhecimento de Jerusalém como capital de Israel assim prejudicando as importantes  relações comerciais com os países árabes da região.
- Aceitou acumpliciar-se aos Estados Unidos no boicote à OMS, organismo crucial para as exportações brasileiras, abandonando sua participação em troca do apoio norte americano no ingresso à OECD não efetivado.
- Autorizou a importação isenta de tarifa sobre o Etanol norte-americano enquanto o governo Trump acabara de impor novas tarifas sobre a exportação de aço e alumínio brasileiro.
- Abriu mão de sua soberania ao permitir instalação de base de foguetes americana em Alcântara, aumentando sua vulnerabilidade externa.
- Designou e subordinou Oficial General brasileiro ao Comando Militar Sul do Exército norte-americano, onde o Brasil não participa das decisões.
- Apoia a decisão de Washington em vetar tradicional indicação de presidente latino-americano para  o Banco Interamericano.
- Celebra tratado militar com os Estados Unidos sem que sejam conhecidos seus termos.

A política externa deve cuidar dos interesses permanentes da Nação, evitando compromissos visando  benefícios pontuais e imediatos, porém contrários à conveniência de prazo mais longo. A aliança celebrada com o governo de Donald Trump bem exemplifica os perigos que encerram  esta opção. Atrelar o Brasil aos interesses inconstantes, temporários e voluntariosos de um mandatário externo pode representar sério risco à continuidade diplomática brasileira.

Quanto ao campo da saúde pública, tem-se a trágica anomia do governo ao enfrentar a pandemia. Não soube avaliar o perigo, nem soube coordenar os governadores em busca de comportamento uniforme.

Já, no Ministério da Saúde, a demissão sequencial de ministros, homens com preparo profissional para o cumprimento da tarefa, hoje substituídos por militar afeito à logística e não à saúde pública, fragilizou, em momento critico, a contenção do flagelo.

A intromissão pública do Presidente, alheio à ciência,  na seleção e recomendação de medicamento para enfrentar a pandemia reflete a irresponsabilidade no enfrentamento de tão dramático perigo sanitário.

A população, incentivada pelo exemplo presidencial descrevendo os efeitos do Covid19 como mera "gripizinha" (registram-se, hoje, cem mil mortes),  explicitamente desprezando as medidas preventivas de isolamento e o uso de máscara, favoreceu a aceleração na disseminação do vírus

São muitas outras áreas que merecem observação e preocupação. A desproteção ao Meio Ambiente merece repúdio nacional e internacional. A integridade da Amazônia está indissoluvelmente ligada ao futuro da nação. Nação agrícola por excelência, o favorável regime de chuvas  e a fertilidade de seu solo são essenciais ao seu bem estar econômico  .

A pasta da Educação já sofre o seu terceiro ministro sem demonstrar, até o momento, a que veio. Tentativas de ideologizar a estrutura do ensino e o currículo repete o erro, com sinal trocado, a nefasta experiência da esquerda.

A responsável pelo Ministério dos Direitos Humanos, Damares Alves, evangélica, prisioneira na estreita  e ultrapassada realidade puritana, tem por principio a intolerância à diversidade de gênero, realidade inconteste no quadro social e político. A adaptação aos padrões internacionais nesta matéria será inevitável face a inter-relação e interdependência hoje imposta pela realidade.

Apesar das insuficiências acima relatadas, restam ainda longo tempo para o governo Bolsonaro repensar seus erros e acertos, assim corrigindo o seu rumo.

A ameaça de retorno das lideranças de esquerda corrupta,  hoje encarceradas, ao pleno exercício político deve servir de alerta para a manutenção de severa postura do Judiciário face à criminalidade.
Colocar em dúvida a integridade jurídica de processos recém passados abre as portas à revisão e anulação de condenações passadas.

No campo econômico, conquanto auxílio às camadas mais pobres seja essencial face à pandemia, também importante ater-se à dosagem cuidadosa para que não se torne distributívísmo demagógico.

Quant à política externa brasileira, mais difícil será a correção de rumo, pois os fatores não são apenas endógenos, mas, sobretudo exógenos. Depende-se da percepção das demais nações sobre o Brasil, sobre o país que deverá agir segundo as convenções que regem as boas relações internacionais, negociando divergências e acentuando convergências estratégicas da Nação..

Pelo que vai acima, o Brasil enfrenta sérios problemas. Somente seus cidadãos poderão protegê-lo.

                                                             


sábado, 1 de agosto de 2020

Leapfrogging

La red 5G ofrece un futuro prometedor para las compañías


Theodore Roosevldt, no início do Século XX, deu grande impulso à presença global norte-americana. Seu lema era "Speak softly and carry a big stick". Hoje, Donald Trump alterou o lema: "Speak loudly and carry a limp stick."

No ocaso do Século XIX e início do XX, os Estados Unidos marcavam o novo Século com sua vitória sobre a Espanha, assim conquistou as Filipinas no longínquo Oriente, ainda colocando Cuba e Porto Rico sob sua tutela. Eram tempos gloriosos onde a Doutrina Monroe  validavam a interferência nos assuntos Latino Americanos mas vedando a presença extracontinental.

Já, Donald Trump, guindado ao poder apesar do voto popular minoritário, transformado em vitória pela alquimia do Electoral College¹, assume o poder em condições bem diferentes de seu longínquo antecessor. Após décadas de insucessos militares e guerras inconclusas², não mais podendo o Presidente acenar com o "Big Stick", resta-lhe  a opção, não mais do "speak softly", mas sim do grito e ameaças, traduzidas em sanções econômicas. 

Restabelecendo em seu governo a anteriormente abandonada intervenção explícita em assuntos pan-americanos, o embaixador norte-americano, desembarca no Brasil com singular mensagem. 

Em entrevista concedida ao O Globo, em 28 de julho, Todd Chapmen, abandonando a linguagem diplomática que deveria sugerir mas nunca impor, recorreu à uma frase impositiva, neo-colonialista e imprópria quando envolve dois países soberanos: "Se o Brasil escolher o sistema 5G da chinesa Huawey, haverá consequências".

Ainda, como justificativa do veto alegou tal opção "permitiria o roubo de propriedade intelectual de empresas americanas" assim fragilizando a segurança dos Estados Unidos. Ora, as comunicações de matriz e filial  não abrangem segredos de propriedade intelectual, estes sempre resguardados com o maior empenho nos labirintos jurídicos das Matrizes. 

O bom senso indica que a real razão por detrás deste pretexto é a política norte-americana de cercear, por todos modos possíveis, o desenvolvimento da China que vê como ameaça à sua hegemonia, seja, ou não, do interesse  dos países hóspedes. 

O Embaixador ainda apela pelos sentimentos "democráticos" da opinião pública brasileira, lembrando  o regime ditatorial chinês. Contudo, tais pruridos não impedem, nem ao Brasil nem aos Estados Unidos negociarem ativamente com países ditatoriais. A proximidade de Washington a Riad é bem conhecida, seja como peão importante no jogo géo-político do Oriente Médio, como o principal produtor de petróleo bem como o mais importante comprador de armas norte-americanas. 

A política externa brasileira tem por finalidade  zelar pelo interesse tanto econômico quanto político do Brasil. 

Se uma Venezuela, vizinha geográfica do Brasil, despreza suas obrigações democráticas, o Itamaraty levará em conta os perigos de tal proximidade e tomará medidas para sua proteção.  O mesmo não acontece, como é o caso da China separada do Brasil por oceanos, onde as relações comerciais não interferem na política interna das partes nem representam perigo para os interesses brasileiros. E assim ocorre com os demais países. 

Esta mesma visão política é compartilhada pela política externa norte-americana onde, na relação econômico-política, também segue seus interesse. Recorre, contudo,  à expressões "moralistas" quando lhe convém potencializar seus objetivos e não como elemento limitador.   Mr. Todd Chapman o faz neste momento.

Sob o ponto de vista do interesse brasileiro, necessário é enfatizar que Brasil constata queda abrupta em seu PIB nos últimos três anos, e, ainda,  vê ameaçado seu desempenho econômico nos próximos dois anos devido à epidemia.

Este acumulo de fatores negativos terão consequências indesejáveis no campo social e político, tendentes a favorecer a Esquerda. Neste cenário que se desenha, o Brasil não pode perder tempo. Não pode apenas depender de sua agricultura. Deve se aproveitar da geração de divisas que o campo nos traz para potencializar investimento em tecnologia de última geração, antes  que a concorrência o faça.  

Abrir mão, do hoje disponível 5G.  é perder tempo e substância econômica, é subordinar o crescimento e sofisticação na "indústria virtual" por razões que não nos dizem respeito. É curvar-se aos  interesses de outro país. Qual será o custo para a Nação por atrasar por uma ano ou mais o salto tecnológico de comunicação e computação?
          
Para recuperar o tempo perdido e para acelerar o tempo a ser ganho ao Brasil se impõe o "leapfrogging"³. O pulo por cima do atraso tecnológico para assim atingir-se o a última geração às nossas portas. O 5G, neste momento,  nos proporciona exatamente isto.



1) Sentido diferente do conceito de colégio eleitoral brasileiro 
2) Coréia, empate; Vietnam, derrota; Iraque, inconclusa; Afeganistão, inconclusa; Granada, vitória.
3) Leapfrogging é Pula Carniça em inglês.

  

domingo, 26 de julho de 2020

Guerra ou Paz


“LARGEST TRADE WAR IN ECONOMIC HISTORY” – INcontext ...


Bill Clinton, ao emergir do lamaçal criado pelo caso Monica Lewinsky e a subsequente tentativa de seu impeachment, salvo que foi pelo voto do Senado, buscou nesta guerra pela independência do Kosovo, então província da Sérvia, desviar a atenção do eleitor. Este, impelido pelo apelo patriótico que a guerra aguça deu ao titular a vitória esperada. Clinton teve pleno sucesso sem correr qualquer risco nesta guerra burlesca, pois o inimigo Sérvia  era militarmente insignificante.

O mesmo tema, porém em escala muito maior, é hoje encenado por Donald Trump. Enfrentando crescente rejeição eleitoral causada  por seu estilo impetuoso e imprudente no combate ao Covid-19 , busca a reversão desta tendência cadente. O faz recorrendo ao confronto com a China, à pseudo ameaça à segurança nacional. Envolve-se na bandeira em busca do voto patriótico.

Tendo iniciado seu governo em clima de cordialidade e colaboração com o governo chinês, onde troca de elogios era a norma,  vê-se uma inversão nesta relação. Porém, os efeitos negativos deste "novo normal" não devem ser desprezados. Um crescente número de empresas chinesas vêm suas operações prejudicadas ou interrompidas por condições leoninas somente agora impostas por Washington.

Dentre elas, a ameaça de exigência de registro de dirigentes de empresas chinesas como "representantes de nação estrangeiras"  inaugura uma nova relação que se afasta do campo empresarial para o terreno político. Ainda, o impedimento de acesso  do sistema 5G da Huawey ao mercado, e a proibição de venda de chips e outros produtos tecnológico à China inverte abruptamente o histórico comercial entre as duas nações, assim gerando relevantes prejuízos financeiros e estratégicos.

Dentro deste quadro de crescentes obstáculos, contrários ao livre comércio, investimentos e fluxo de capitais evidencia-se a estratégia desnudada de conter-se o ritmo crescente da economia chinesa, hoje já maior do que a norte-americana pelo critério PPP (Purchasing Power Parity). Além de crescentes sansões comerciais e financeira aplicadas a Pequim, até mesmo vedar  à China o uso da moeda dólar já estaria sendo contemplado, de acordo com fontes extra-oficiais.

Já no campo militar, o chanceler norte americano, Mike Pompeu, subindo o tom, anuncia ser  a expansão chinesa risco para a segurança dos Estados Unidos e da América Latina! Dando "dentes" à retórica, Trump manda fechar o consulado chinês em Houston, dando ao conflito nova dimensão.

Resta a pergunta, qual a reação da China? Quais as "linhas vermelhas" que não poderiam ser cruzadas. A habilidade de Xi Jin Ping está sendo posta em jogo, tanto interna como internacionalmente. Face à corrida eleitoral ora em curso nos Estados Unidos, prudente seria evitar a radicalização. O Primeiro Ministro sabe que as respostas devem ser temperadas pela atual indefinição do quadro eleitoral americano, onde a eleição do Democrata Joe Biden poderá lhe ser benéfica quanto à intensidade da atual controvérsia. O acirramento daria à Trump vantagem indesejada.

Quais seriam as respostas do outrora Império do Meio, e como poderiam elas afetar, não somente o seu  adversário, mas, também, as demais nações. A notável expansão comercial chinesa, permeando todos os continentes, dá à atual desavença um conteúdo pandêmico. De uma forma ou outra o atrito USA - China poderá provocar marolas planetárias com poucos ganhadores, se algum.

No cenário econômico, uma interrupção da cooperação comercial traria substanciais prejuízos, tanto à  América quanto à China. A dependência mutua é substancial, sobretudo na área tecnológica. Na área agrícola, tanto um quanto outro sofreriam graves perdas com a queda abrupta na venda de grãos. Na área financeira, vale notar a substancial posição chinesa em títulos do Tesouro norte-americano e os efeitos da perda de tal financiador. 

Também relevante  será avaliar o cenário militar. Pequim não tem como projetar sua força armada muito além de suas fronteiras próximas, tanto no mar quanto na terra. Sua força aérea não lhe permite incursões a grande distância por não ter os pontos de apoio para tal. Poderia manter, e até mesmo ampliar seu domínio sobre o Mar do Sul da China e o mar da China a Leste ao neutralizar as bases norte americanas, tais como Guam, Okinawa, Subic Bay e outras. Porém as hostilidades levariam a perda do livre acesso às rotas marítimas hoje essências à sua sobrevivência.

Como desdobramento estratégico, seria possível uma maior aproximação politica e comercial Pequim-Moscou que abriria as portas à China para as imensas reservas de petróleo e outras matérias primas. Contudo, o temor histórico quanto ao vizinho chinês por sua latente ameaça à integridade russa na descampada Sibéria, levaria o Kremlin a hesitar em maior engajamento militar com seu aliado . Mais um movimento no complexo xadrez asiático.

Já, a marinha americana, com sua arma aérea, secundada, ainda, pela força submarina capacitada para o lançamento de mísseis, seria um adversário insuperável desde que distante das margens chinesas Porém, os "boots on the ground", essenciais à uma vitória militar, não parece possível visto o perfil geográfico e demográfico da China. Os dados, de parte a parte, parecem indicar que, se guerra houvesse, chegar-se-ia a um impasse a ser resolvido politicamente.

E enquanto a inimizade se aprofunda, a União Europeia se vê confrontada coma "escolha de Sofia", onde sua preferência política pelos Estados Unidos se vê atenuada pelo interesse econômico que o mercado chinês lhe traz. Ainda, a cadente ameaça russa à integridade europeia enfraquece, também, os vínculos criados pela OTAN, hoje não mais sacrosanta. Assim, observa-se uma gradual diluição da outrora inquestionável dependência interatlântica. Aliança, sim, mas até que ponto?

As suposições acima nada mais são do que um exercício sobre um tema onde reside a permanência da Paz e sua consequente prosperidade mundial. É  torcer para que ambos os lados tenham juízo. Enquanto isso, o mundo não engajado no conflito observa, ansioso, quais serão as consequências.








quarta-feira, 22 de julho de 2020

Uma vez eleito...

EM NOVEMBRO DE 2018 ESTE BLOG PUBLICOU A MATÉRIA QUE SEGUE  ABAIXO. 

BOLSONARO PRESIDENTE OFICIAL - YouTube


O eleitor brasileiro deve desvencilhar-se da síndrome Fla-Flu onde um lado representa todo o mal e o seu candidato, tudo de bom. 

Esta coluna considera o candidato do PT inadequado para dirigir o país, menos por sua pessoa do que pelo partido que representa. Se eleito, as ações que será levado a tomar, impelido pela ideologia de seu partido refém do populismo e da desonestidade criminosa constatada nos tribunais, grande mal trará à Nação.

A preferência pelo candidato Jair Bolsonaro se deve a duas principais razões; a primeira, por impedir a ascensão de Fernando Haddad à presidência e o retorno dos vícios que tanto feriram o Brasil; a segunda, por ter Bolsonaro afirmado adotar, quando eleito, os princípios da economia ortodoxa, a mais coincidente com os interesses do país.

Mas tal preferência não permite ao cidadão-eleitor desviar sua atenção dos enormes desafios que se colocam diante de um candidato sem qualquer experiência administrativa e despido do habito de lidar com as grandes questões que deverá enfrentar.

Pelo contrário, será o aconselhamento e. por vezes, a critica construtiva, a maior ajuda que poder-se-á oferecer a Jair Bolsonaro no aprendizado que provavelmente se iniciará em janeiro de 2019.   
Seu carácter impulsivo, por vezes violento, e simplificador encerra perigos que não devem ser ignorados. O forte apoio que necessitará deve ser aquele que favoreça a realização dos grandes objetivos nacionais, porém com a prudência e respeito democrático na escolha do instrumental para lá chegar.

A  seleção de seus colaboradores revelará ao público o tom de seu governo. Para que tenha sucesso, necessário será que se cerque com os conhecimentos que lhe faltem e não daqueles que, por preferência pessoal, se lhe assemelhem. 

domingo, 19 de julho de 2020

Relações Internacionais

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O ministro Salles, do meio ambiente, mostrou talento ao inovar procedimento administrativo do governo; aproveita a pandemia e faz "passar a boiada". Em outras palavra, o faz enquanto não estão olhando.

Assim, enquanto se erra na Amazonia, nas relações exteriores o Chanceler Ernesto Araújo "passa as suas boiadas"... Lastreado nas teorias do pseudo filósofo Olavo de Carvalho, o diplomata adotou diversos procedimentos apesar de tendentes ao alheamento do Brasil face as demais nações cuja relevância não se pode ignorar tanto no  político quanto no econômico.

 A nova prioridade da política externa brasileira tem por lastro uma aliança integral  com os Estados Unidos da América, desprezando a inversão ora constatada nas prioridades internacionais daquele país. Não mais é aquele que, ao longo do Século XX, demonstrou a sabedoria de criar uma rede de solidariedade e responsabilidade mútua tendo por centro a Organização das Nações Unidas. Manteve suas fronteira tarifarias competitivas estreitando laços econômicos e políticos. Assim, a aliança de país como o Brasil com o gigante do Norte favorecia o diálogo multilateral, tendo por resultado o crescimento da prosperidade mundial. 

Porém, a eleição de Donald Trump, jejuno em política interna, canhestro nas relações humanas e desprovido de conhecimento internacional, iniciou nova fase na política externa norte-americana, Substituiu as décadas de cooptação e cooperação de países de visão política convergente por uma formulação neo-isolacionista. No momento, promove  o retorno da visão Mercantilista onde as relações entre países somente beneficiam o lado mais forte, onde a soma algébrica seria Zero. Ou ganha um, ou ganha o outro, negando o benefício mútuo que traz o comércio.

De  acordo com esta visão, Donald Trump optou pela contenção e reversão da expansão econômica e política chinesa,  cujo avanço implicaria em ameaça à segurança dos Estados Unidos.

Apesar da posição auto centrada de Washington, tendo por objetivo principal o isolamento da China, o Chanceler Ernesto Araújo, com o beneplácito de seu chefe, defende uma estreita aliança com os Estados Unidos. Coloca em risco, assim, os benefícios insubstituíveis que as importações chinesas trazem à agricultura brasileira, único setor que diferencia internacionalmente a nação brasileira, bem como o relevante fluxo de recursos aqui investidos.

Porém, igualmente grave, é a recente divulgação de relatório norte-americano onde a China é colocada como ameaça militar grave, abrangendo, não apenas os Estados Unidos mas, também a America Latina. Isto posto, insere-se no cenário geo-político, situação pre-conflito militar envolvendo o Brasil e suas forças armadas, e, em última análise, o seu povo. A recente entrevista de almirante Craig Faller, titular do Comando Sul  norte americano encarregado da segurança Latino Americana, destaca a importância do Brasil neste novo quadro militar, onde oficiais generais brasileiros estão sob o seu comando (...they work for me).

Não fora a aliança militar (Special non-NATO ally) ora vigente entre Brasil e Estados Unidos, tais manifestações seriam relevadas; ocorre, contudo,, que, considerando a vigente aliança militar recém celebrada, sujeita à  condições ainda desconhecidas pela opinião pública brasileira, necessário, e até mesmo impositivo se faz a plena divulgação do texto dos documentos relevantes.



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